Inveja

O ambiente corporativo é propício para comportamentos invejosos devido à percepção de recursos limitados, ameaças à sobrevivência e a representação psíquica do trabalho como fonte de vida e criatividade, exacerbando a defesa contra a perda.

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Inveja - Artigo escrito para a revista Você RH - Fev 2024

1 - Fale um pouco sobre sua pesquisa a respeito da inveja no mundo corporativo. Qual a metodologia e principais conclusões? Há um lugar na internet onde eu possa vê-la? Quando você fez?

A minha pesquisa se baseia em 30 anos de observação das dinâmicas das relações no trabalho.

Nesses 30 anos no mundo corporativo há mais de 30 anos, uma das minhas principais tarefas é a pacificação dos conflitos.

E o conflito permeia as relações humanas, sobretudo no ambiente de trabalho.

Ao longo desses anos, com a minha experiência em RH e experiência como Psicanalista clínica ficou muito claro para mim como a inveja atua no trabalho. 

Atendo muitos pacientes que são executivos em posição de liderança e na sua grande maioria os temas mais abordados nas sessões de análise são referentes às experiências dolorosas com pessoas invejosas no trabalho. Em alguns casos o invejoso é o próprio paciente que não acessa esse afeto por ser inconsciente e de difícil aceitação.

E a fundamentação teórica principal que ancora minha pesquisa é o livro Inveja e Gratidão de Melanie Klein, psicanalista austríaca-britânica que criou a teoria das relações de objeto e a teorias das posições esquizo paranóide e posição depressiva. Uma mulher brilhante, com a qual eu me identifico muito com os seus pensamentos.

2 - Por que você diz que a inveja é responsável pelos conflitos mais críticos nas empresas?

A inveja é constitucional, é inata. Todos somos invejosos em alguma medida. O que nos diferencia uns dos outros é a porção de inveja que nos cabe, uns são mais invejosos outros menos.

E o ambiente corporativo é persecutório por natureza porque entendemos, de forma inconsciente, que há uma limitação de recursos. Isto é, se o meu colega é mais eficiente e talentoso do que eu, ele receberá recursos que me faltarão e assim minha sobrevivência (manutenção da fonte da vida) estará em risco.

A inveja é um processo inconsciente e de difícil admissão. É um mecanismo de defesa psíquico. Lidar com a falta, com a incapacidade pode ser desafiador.

Quanto mais fraco for o ego, mais forte e mais inconsciente será o processo.

A inveja impede o crescimento mental, o aprendizado com quem sabe mais. A inveja não tolera a relação de dependência!

Tem liderado que não aceita a hierarquia porque não tolera que o líder esteja em uma posição superior à dele, ou que saiba mais que ele.

Assim como, existem líderes que não toleram que seus liderados tenham mais conhecimento que ele, e critica tudo que o liderado faz. Destruindo a capacidade criativa e de inovação do liderado.

3 - Por que o ambiente corporativo é tão propício para que comportamentos invejosos se manifestem?

A inveja é um mecanismo de defesa psíquico, é um processo inconsciente e arcaico, que se inicia na relação do bebê com a mãe. 

O bebê espera ter acesso às fontes da vida, o seio e a mãe. Ele espera que esse acesso seja ilimitado e imediato (como era qdo estava na barriga) 

E é aqui também que começa a nossa relação com a inveja e com a gratidão.

Todos esses processos arcaicos da relação mamãe/bebê ficam registrados no nosso inconsciente para o resto da vida, é a nossa herança mental.

Esses processos psíquicos vão se reproduzir durante toda a nossa vida.

O trabalho por sua vez assume na nossa psique a representação da fonte da vida, da criatividade, sobrevivência (salário, benefícios, bônus, status…). 

E qualquer ameaça à nossa sobrevivência (a perda do trabalho) será combatida de forma brutal para a total destruição do objeto ameaçador.

Os conflitos no trabalho tem a sua raiz no medo da perda da sobrevivência. E isso é muito potente, nos mobiliza para uma defesa irrefreável de manutenção da vida.

A inveja é esse mecanismo de defesa psíquico e inconsciente que nos orienta para destruir tudo e todos que denunciam a nossa falta, nossa incompetência, nossa incapacidade. Quando eu olho para o outro e vejo seu talento, conhecimento, habilidade relacional eu reconheço em mim o que me falta. Tudo que eu noto no outro é porque me falta, me dói, é um espaço vazio. É isso é muito doloroso! A forma de estancar essa dor é a destruição da sua fonte de comparação, que neste caso pode ser o seu colega de trabalho, seu liderado ou seu líder.

Devido a sua representação psíquica, o ambiente corporativo é o playground da inveja. 

4 - Quais as diferenças na forma como se manifestam a inveja e a cobiça no ambiente de trabalho?

Cobiça é o desejo de possuir ou conseguir algo que outra pessoa tenha. Por exemplo: Bens materiais, honrarias, fama, habilidades específicas..

No ambiente de trabalho pode se manifestar despertando o desejo de se desenvolver tecnicamente ou desenvolver habilidades relacionais, capacidade de liderar times. A cobiça impulsiona ao crescimento, ao aprendizado com o outro que sabe mais.

Inveja  é o desgosto, a tristeza pela felicidade alheia. O invejoso não tolera o sucesso do outro, porque causa grande dor e sofrimento a ele. Então ele usa a inveja para destruir o outro e tudo que o outro tenha. 

A inveja é destrutiva!

No ambiente de trabalho se manifesta com fofocas, mentiras, puxadas de tapete, apropriação de mérito alheio e por aí vai…

5 - Quais os maiores riscos para empresas que incentivam o comportamento invejoso?

Como eu disse, o ambiente corporativo é persecutório por natureza. E se torna muito mais persecutório quando a competição é incentivada, quando falta segurança psicológica, ambiente com muitas críticas, com baixa ou nenhuma autonomia.

A inveja influencia a qualidade das nossas relações e a capacidade de aprendizado e evolução. Impede o crescimento individual e o crescimento da organização. Destrói a capacidade de inovação e criatividade. 

6 - Como o RH e as lideranças devem atuar para reduzir a ocorrência de inveja nas organizações?

A inveja no mundo corporativo é uma problemática que devemos pensar e falar a respeito, mas esse tema nunca é abordado.

Primeiro porque a inveja é um sentimento tabu! E de difícil admissão e de pouquíssima compreensão.

É um pecado capital! Portanto um sentimento combatido, escondido.

O funcionamento psíquico é extremamente complexo e delicado. Entendo que o RH e as lideranças têm algumas limitações tanto em relação a compreensão dessas complexidades quanto a sua possibilidade de intervenção. 

Entretanto, o desenvolvimento de uma cultura que favoreça a visão do todo e não parcial, onde se perceba que em cada indivíduo há qualidades e defeitos e apesar da ambivalência humana, o trabalho em equipe leva ao atingimento de metas e recompensa individual.

Entender que o mesmo que frustra é o mesmo que gratifica (empresa/líder/liderado)

Combater a inveja da relação de dependência - (você depende do seu liderado, do líder, dos colegas e eles de vocês. Desenvolver a colaboração.)

Usar o feedback como instrumento de gratidão: Jamais usar o feedback para projetar das suas fraquezas, inseguranças, suas incapacidades… O feedback pode ser destrutivo se o emissor não tiver autoconhecimento.

Fazer análise ou terapia é imperativo!

O processo de análise, autoconhecimento vai te ajudar a se perceber, a reconhecer quando algo está te afetando e te instrumentaliza para que você lide melhor com as angústias cotidianas e lide melhor com o outro.

Vai te ajudar a identificar se tem algum sofrimento, alguma questão ou algum trauma que continua atuando na sua vida e te impedindo de sentir gratidão.

A gratidão é o antídoto para a inveja!

É fundamental cuidar dos sentimentos negativos que te impedem de ter gratidão plena.

Porque sentir gratidão é ter contato com a felicidade e o reconhecimento é alcançar a integração e organização psíquica.

É experimentar a bondade, a vida e a crença no bom.

Uma pessoa que se sente grata, ela tem mais paciência, generosidade, criatividade e empatia. (são skills essenciais para qq liderança)

Aqui vão quatro (04) ganhos associados à integração e portanto a gratidão, mas que exigem profundos e complexo processos psíquicos:

  1. Profundidade dos afetos

  2. Responsabilidade (no sentido de lealdade com seus sentimentos)

  3. Compromisso

  4. Amplia a inteligência e capacidade de aprendizado

7 - E a pessoa invejada? O que ela pode fazer para ser menos vítima da inveja? 

Absolutamente nada. Continue brilhando, sendo grato(a) e compartilhando suas virtudes com o mundo.

Por Rode Ziembick – Psicanalista, Palestrante, Mentora de Carreira